«Quem disse que anjo tem que ter asas?»

By Andreia Morais - setembro 25, 2013



«Nunca Quis Acreditar que Aquela Farda Enrugada, Esfarrapada, Queimada e Encurtada era a Dele 

Talvez a imagem seja cruel... bem mais cruel é a realidade! 

Este foi o momento em que me cruzo com a ambulância onde vinha o Toninho e o jipe onde vinha o Daniel e o Vítor. Foi o momento mais marcante deste verão... Atrás deles fui tentar ajudar... a guerra fazia vitimas. Estas foram vítimas inocentes de um terrorismo que roubou a juventude, a vida, a companhia, a presença de seres humanos que se destacam de uma sociedade anónima e invejosa, sem compaixão e sem respeito. Atacaram o nosso grupo. Sofremos baixas... Cada vez que morre um Bombeiro a sociedade fica mais pobre, as comunidades mais pequenas, as pessoas mais desprotegidas! (ler notícia completa aqui)» 





Todo os anos, sempre que o Verão nos bate à porta, as notícias que nos invadem são predominantemente marcadas por esta realidade triste e igualmente revoltante. Todos os anos passamos pelo mesmo. E o que mais me custa é que caímos sempre no mesmo erro. 

Por mais que me esforce, nunca serei capaz de entender (e principalmente aceitar) o prazer inerente a atear uma floresta. Ultrapassa-me. Ultrapassa-me a realidade e o facto de não conseguir reconhecer esses seres como pessoas. É impossível que alguém dotado de raciocínio seja capaz de agir de forma tão cruel e desumana. Pesa-me o coração reconhecer que há aqueles que usam e abusam dos outros, que ainda se riem por isso e que agem puramente por maldade. Ninguém é inteiramente bom, assim como gostava de acreditar que também ninguém é inteiramente mau, mas acho que a vida nos oferece dois caminhos de mão beijada e nós escolhemos o que queremos seguir - há quem siga o coração e se preocupe genuinamente com a humanidade e há quem se desprenda da bondade e viva de costas voltadas para o mundo. 

Calculo que todos (ou pelo menos grande parte) pensamos ser bombeiros quando éramos crianças. Não me lembro se passei por essa fase, mas sei que sempre tive um enorme respeito por estas pessoas de farda que todos os dias enfrentam a morte sem hesitar. A coragem que lhes corre no sangue, que os faz sair todos os dias de casa mesmo sabendo que podem não voltar, assusta-me ao mesmo tempo que me protege. Assusta-me porque aquelas pessoas são filhos/filhas, irmãos/irmãs, sobrinhos/sobrinhas, afilhados/afilhadas, pais/mães, maridos/mulheres, netos/netas de alguém. Alguém que fica constantemente de coração nas mãos. Alguém que, apesar disso, sente um orgulho descomunal naquela pessoa. O problema é que na hora da verdade, o orgulho, infelizmente, não lhes salva a vida enquanto lutam para nos salvar a nós. E assusta-me porque não está nas nossas mãos decidir quem parte e quem fica - e nestas situações partem sempre os inocentes. Por outro lado, a proteção que nos fazem sentir aconchega, pelo simples facto de sabermos que há pessoas dotadas de um sentido de união fascinante. E é preciso ser-se feito de uma massa diferente dos outros, pois nem todos somos capazes de arriscar a nossa vida por mais que nos preocupemos. 

Um bombeiro é um Herói. Por tudo aquilo que faz só o podia ser. E a verdade é que se arriscam por milhares e milhares de pessoas que nunca tiveram oportunidade de conhecer. Arriscam a vida deles para salvar a nossa, mesmo que não nos devam nada. Li há algum tempo que os bombeiros são super heróis, mas sem poderes mágicos. Não deixa de ser verdade, embora considere que há alturas em que fazem verdadeiros milagres. Também não deixa de ser verdade que as minhas palavras serão sempre escassas para agradecer tudo aquilo que fazem por nós, por esquecerem os seus medos e enfrentarem o perigo, por terem escolhido lutar pela humanidade e não contra ela e por serem bravos o suficiente para continuarem a vestir aquela farda, mesmo quando está cravada de perdas.

Todos os anos o cenário é o mesmo: florestas pintadas de negro. E antes fosse de forma figurada, antes fosse uma realidade inventada numa história sem consequências reais. Todos os anos perdemos parte da nossa beleza paisagísticas e, sobretudo, Guerreiros. O sentimento de impotência tolda-me os sentidos, parte-me o coração em mil pedaços sempre que ligo a televisão e ouço as mesmas palavras e o mesmo desfecho. 

A culpa também é nossa! Há realidades que não se conseguem evitar, mas podem ser atenuadas. Esta é uma dessas situações. Acho verdadeiramente bonito e comovente que se façam iniciativas para ajudar as corporações de bombeiros. Só que não devíamos fazer isso só agora, só no verão, só quando o fogo nos leva aqueles que o enfrentam. Infelizmente, as nossas florestas passam a maior parte do ano sem serem limpas, cuidadas, tratadas. E perdoem-me a franqueza, mas em vez de termos pessoas em casa a receberem o rendimento mínimo, quando o trabalho não lhes bate à porta ou lhes fecham a porta na cara, talvez pudessem fazer esse serviço. E quem sabe se em vez de deixarmos um euro na corporação de bombeiros mais próxima apenas numa data em específico o pudéssemos fazer mais vezes durante o ano. Talvez nos pudéssemos juntar todos mais vezes para limpar as florestas. E talvez se todos tivessem a preocupação de limpar os seus terrenos muitos dos fogos fossem evitados e muitas vidas poupadas. 

Não sei o que se passa, mas acho que de ano para ano esta realidade ganha proporções gigantescas. A quantidade de notícias que este ano nos davam conta da perda de mais um bombeiro foi verdadeiramente assustadora. E nada ajuda, desde pessoas com mau fundo ao vento que propaga o fogo; desde a falta de água à falta de meios. E por mais Heróis que os bombeiros sejam (e disso ninguém tem dúvidas), infelizmente ainda não se conseguem multiplicar e dar conta do recado sozinhos. É preciso investir na formação, em reforços, em meios, em tudo. Porque aqui não estão apenas em causa os terrenos queimados pelo país fora, estão em causa vidas. Vidas de pessoas que tinham um mundo inteiro para conquistar, mas que foram travadas a meio da viagem. 

Eu sei que a maior parte das pessoas fazem o que pode para ajudar e só não fazem mais porque, por vezes, não está ao seu alcance. Se há coisas das quais me orgulho nos portugueses é esta capacidade de entreajuda, de solidariedade, de luta por causas nobres. E acredito que um dia seremos capazes de inverter esta situação. Acredito que um dia estes Homens de coração gigante e coragem no sangue serão capazes de vencer as adversidades. E quem sabe se um dia essas pessoas que escolheram seguir o caminho errado da vida voltem as costas a esse percurso, retrocedam e se juntem aos que lutam por um mundo melhor. 

Nunca é de mais lembrar e homenagear quem merece. Assim como nunca será de mais agradecer e lembrar que todos podemos contribuir. Obrigada Bombeiros de Portugal por nos protegerem todo o ano sem nos cobrarem um bocadinho que seja. São pessoas como vocês que me fazem acreditar na humanidade, que há pessoas com bons princípios e o coração no sítio certo. 

A mudança tem que partir de nós, só assim conseguiremos mudar o mundo. E temos que começar agora. Por nós e por eles. Sobretudo por eles que batalham incondicionalmente para nos proteger. Quem sabe se, todos juntos, para o ano, quando o Verão nos bater novamente à porta, não conseguimos escrever uma nova história. Desta vez com um final mais feliz e digno para os nossos super Heróis sem poderes, mas com um coração onde cabe este mundo e o outro. E ainda mais algum que possa existir. 


«Anjos estão presentes em todas as horas das nossas vidas e principalmente nas mais difíceis. Nós não os conhecemos, mas são heróis que estão sempre ao nosso lado. Os anjos não salvam somente, anjos aconselham, protegem e cuidam. É muito bom saber que todos nós temos um anjo que faz tudo pela vida, mesmo sem ter asas». 

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