As minhas viagens de metro #3

By Andreia Morais - fevereiro 17, 2014


«O tempo foi diluindo a tua presença na minha vida. Quem sabe um dia também dissolva a tua imagem na minha memória e eu consiga finalmente esquecer-me de ti. Não é o que quero; porém, era o que deveria fazer. Nunca somos os donos do nosso coração. O meu não é meu, porque quando amo profundamente estou a dá-lo a outra pessoa»,
Margarida Rebelo Pinto


As memórias vão ficando ligeiramente turvas. Desfocadas como aquela nossa fotografia que encontrei enquanto remexia no passado.

Se fizer um esforço - que não tem que ser tanto assim - consigo identificar tudo: os sorrisos, as brincadeiras, as confidências, as histórias, os olhares, o silêncio que tantas vezes dizia mais que as palavras que trocávamos, a cumplicidade. Ainda que seja um mero retrato distorcido da nossa realidade, por não nos focar com a qualidade daquilo que fomos, aquela fotografia é mesmo a nossa cara. E aquilo que tu foste para mim: um pilar, um porto de abrigo, um amor não correspondido. 

Custa-me falar no passado, pois é a prova de que o que foi já não volta a ser. E custa-me ainda mais falar de ti com essa distância. Talvez porque aquilo que fomos já não voltaremos a ser. E agora apenas sejas, não um pilar, um porto de abrigo, um amor não correspondido, mas uma memória. Não mais do que isso. Não menos do que isso. Apenas uma memória.

Era capaz de olhar para esta fotografia durante horas. E tenho a certeza que as recordações voltariam em catadupa, perfeitamente nítidas. No fim, quando já não tivesse mais rolo de memórias para desenrolar voltaria a sentir o coração pesado, como se tivesse apagado tudo sem querer. Como se não restasse mais nada do que um espaço em branco, como quando se perdem fotografias do álbum de família e não tivéssemos como as recuperar. 

Nada acontece por acaso. Talvez encontrar esta fotografia signifique que há memórias incompletas, histórias que ficaram por escrever, por se terem perdido no tempo, mas que não deixam de nos acompanhar. E talvez seja hora de fechar o álbum, apontar a objetiva para uma nova direção, focar em novos momentos e novas pessoas e assim partir do lugar onde parei. Escrevendo um novo começo. Talvez encontrar essa fotografia signifique isso mesmo: um novo começo. 

Serás sempre das melhores «coisas» que tive. Passado. E para te mudar do meu coração não basta mudar o anel de dedo e parar em fotografias que não nos focam nitidamente. Mas acabarei por lá chegar. E quando o fizer serei capaz de reconhecer isso, e deixarei de sentir o coração pesado. 

As memórias vão ficando ligeiramente turvas. Deixa-me acreditar que isso é um sinal de que finalmente estou a desprender-me do passado e a seguir um presente incerto e fascinante. Ainda que possa cair na ilusão do momento, de me julgar mais forte para não voltar a cair na tentação de te recordar todos os dias, deixa-me desapegar. E se for para te ires embora vai sem deixar rasto. E não voltes. Sobretudo quando já não fores mais do que um pedaço da minha história que encerrei e guardei com cuidado. Não ia aguentar ver-te regressar quando já tinha sido capaz de avançar. 

«Para me dominar assim só pode ter mel», acabei de ouvir isto enquanto, mais uma vez, te escrevo. Como se ainda tivesse alguma esperança que me lesses e compreendesses que todos estes pedidos são para ti. E sabes o que te digo? Mel a mais também enjoa. E por mais frias que possam ser as palavras tenho que me impor esta dureza, para me obrigar a ser forte e a não ceder. 

Terás sempre um lugar especial no meu coração, mas aquilo que nos une começa a ficar como aquela nossa fotografia que encontrei sem procurar: desfocado. E é assim que tenho que te manter, para não me magoar mais.


M, 15.10.2013

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24 comentários

  1. Mais um texto muito bem escrito.
    É um texto baseado na tua vida ou não? tenho esta duvida em certos textos teus :/

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  2. como é que foi o regresso á faculdade ?

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  3. Sabes, também tenho uma fotografia assim...
    Que belo texto :) Nunca me desiludes!

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  4. Amiga que linda imagem.
    Tenha uma semana abençoada
    Blog: http://arrasandonobatomvermelho.blogspot.com.br
    Canal de youtube: http://www.youtube.com/NekitaReis

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  5. Adorei tudo o que escreveste... é verdade que para tirar uma pessoa do nosso coração não é mesmo nada fácil e leva muito tempo..

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  6. Que texto bonito. Demora mesmo muito tempo para tirarmos alguém do nosso coração, as vezes, ela ainda habita em nós e pensamos que não.

    beijinhos

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  7. Tal como quando olhamos para uma fotografia...as memórias são para lembrar com um olhar do que houve de bom naquele momento para haver uma foto...mesmo que o que se seguiu não tenha sido tão positivo. Recordar é viver...mas viver não pode ser apenas recordar =)

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  8. Hermoso!!!!
    Buen comienzo de semana, guapa!!! y mi g+!!!:)))

    Besos, desde España, Marcela♥

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  9. R: Tenho de ver é qual é a melhor escola para o tirar!

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  10. Adorei o texto escreves e pronuncias te tão bem. Gostei da frase de inicio.
    Beijinhos

    http://retromaggie.blogspot.pt/

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  11. Tens razão querida, mas não devíamos ser assim tão mauzinhos... eu descarrego constantemente em quem não merece!

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  12. sim, nem acredito q já passaram tantos anos.
    espero q tenhas razão, porque não quero mesmo pagar um chumbo $:

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  13. Mas que texto tão bom. É um enorme gosto ler-te :')
    Um beijinho*

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  14. Aii que lindo Andreiaaaa :)
    Fico mesmo contente por escreveres estas coisinhas aqui :b
    Adorei mesmo o que escreves-te! e a última frase fez-me lembrar várias pessoas e fotografias com certas pessoas também.

    Ser "bicho duro" é fixe! é como se fossemos do contra xD tens que tentar ser :c eu levo as coisas na brincadeira, para não me chatear/magoar muito com certas pessoas :)
    pois éé 4h! "perco" muito tempo cá.. mas vale sempre a pena. Este dias é que nem sequer me meti aqui, porque já sabia que ia precisar do tempo que aqui ia passar ahah x) mas cá estou eu!

    beijinhoss queridaa ♥♥

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